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Uma questão de engate

por Inútil, em 26.09.11

O engate é uma ciência.

Pejada de técnicos ornamentados de um léxico próprio e de executantes capazes de espalhar magia com um simples acentuar de sobrancelha.

Autênticos heróis boémios.

Lamentavelmente, não sou um deles.

Devido a exemplos como o seguinte:

Cenário: 6ª feira, noite amena, aura festiva no miradouro de São Pedro de Alcântara em Lisboa, em pleno Bairro Alto, pós empate do Benfica no Dragão.

Intervenientes: o próprio, um amigo e duas turistas norte-americanas.

A intriga: Dois amigos em plena cavaqueira acerca das opções técnicas de Jesus, ao que chega uma turista, de seu nome Jen, e crava um cigarro. Obviamente ébria, toma a iniciativa de fazer diálogo com os cavalheiros, ao que estes respondem de forma particularmente amistosa. Havia uma outra amiga, Tracy, que, paralelamente a esta conversa a três, tentava a sua sorte com um transeunte alheio aos demais.

Jen, francamente sociável, começou a indagar acerca dos nossos gostos fílmicos. Responde o amigo do Inútil, de forma ora inocente, ora labrega, "Titanic".

Gargalhada geral.

O amigo apercebe-se da falácia e tenta remediar com um contundente "mas também gostei muito do Armaggedon".

Silêncio sepulcral.

Nisto apercebo-me: "Não. Pelo cinema não vamos lá".

Tema óbvio de conversa no seguimento desta asneirada, Obama.

"What do you think of Obama?", diz ela, plena de consciência que eu ia dizer que era bué da fixe ter um Presidente que também poderia ser o Rei do Munhango.

Mas não.

Aqui o campeão ainda não havia percebido que se havia tratado de engate, simplesmente, nem depois de ter sido avisado pelas próprias que só estariam em Lisboa aquela noite e não mais voltariam e que o objectivo da investida seria muito Cindy Lauperiano, pois "Girls just want to have fun".

E toca de "as próximas eleições presidenciais nos States serão as primeiras do pós 9/11 em que o principal ponto a ser discutido será a politica interna em vez de objectivos geoestratégicos e a guerra ao terrorismo".

"Hã?" generalizado. Meu Deus, elas não querem engatar o Vasco Pulido Valente, penso eu! "Vamos falar de música".

"What do you like?", pergunto eu, ao que a Jen, inocentemente retorque "Jimmy Eat's World".

"Yes, but what about non hillbilly music?" seria a resposta a não ser usada.

Todavia, saiu.

Adiante.

Tracy, saturada de tantos rodriguinhos por parte do outro, volta para o prazer da nossa hospitaleira companhia.

Mais dez minutos de conversa para aqui e outros dez para ali.

Ainda mais saturada, pronta para acção, Tracy remata com um insinuante "bem, secalhar está na hora de voltarmos para o quarto de hotel e ir ter com o meu dildo...", soltando ao mesmo tempo olhares lascivos para nós os dois.

Olhinhos à campeão, um revirar de pestana, um sorriso malicioso no canto dos lábios e sabiamente respondo "e a bateria, tá carregada?".

Pimbas!

Primeiro cartão amarelo da noite. Uma entrada a pés juntos que faria inveja ao Paulinho Santos e inúmeros insultos a mim próprio ecoando no vazio da minha cavidade cerebral.

Trinta mil respostas diferentes que poderiam ter sido empregues, mas não. "E a bateria, tá carregada?".

Infeliz, chamemos-lhe.

Criticas à parte, há que admitir que as senhoras foram simpáticas. Ofertaram-nas com uma segunda abébia.

"We just got out of our hotel, in Marquês Pombal, Dom Carlos, and we don't know how to get there".

Maravilha, pensam vocês!!! A coisa vai-se dar!!!

Mas não, histórias destas raramente acabam com um final feliz... 

"Não sabem onde é?", inquiro eu. "Não há problema, contem connosco!!! Então é assim, vão para o outro lado da rua e apanham lá um taxi, mas dizem ao senhor que querem ir to the Marques de Pombal by Rato, ok?!?".

Confesso que foram poucas as vezes na vida em que vi semelhante semblante de desilusão.

Tanto delas, como do meu amigo, que não possui um elevado domínio do inglês como o vosso amigo Inútil. Não sabia o que dizer mas deu para conseguir perceber que estava a perder uma noite impagável devido a dois falhanços à Isaías da minha parte...

 


Confesso que tenho três atenuantes a meu favor, que podem, de uma forma ou outra, ajudar a explicar este comportamento vergonhoso:

 

1) estava ligeiramente embriagado.

 

2) o ponto anterior levou-me a não formular ideias em inglês na perfeição.

 

3) nunca, em tempo algum na vida, esperaria apanhar uma borla daquelas.

 

Servirá isto de justificação?

Não sei.

Deixem-me só ir ali fustigar as costas mais três ou quatro vezes e já falamos.

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publicado às 23:01



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