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J

por Inútil, em 19.06.08

Conheci o J durante a minha peregrinação pelo ensino superior. Um gajo porreiríssimo, de gargalhada fácil e presença forte, de quem rapidamente fiquei amigo.

Histórias, tínhamos mais que muitas, ora de férias, ora de jantares, ora de momentos de convivência em que aconteciam as coisas mais inenarráveis.
Foi trabalhar para os EUA há coisa de dois anos, mas não sem antes ter apostado comigo que o Sporting seria campeão na época de 2007. Ele era assim, um sonhador.
Obviamente, perdeu e ficou a dever-me um jantar. Combinámos saldá-lo da próxima vez que nos viesse cá visitar.
Angariou namorada no seu novo habitat e por lá foi fazendo a sua vida. Voltou cá no Natal do ano passado. Houve troca de prendas, almoço na casa dele mas aposta do jantar nem vê-la. E lá se foi ele embora.
Não tivesse ele morrido na passada segunda-feira e provavelmente teríamos liquidado a nossa aposta lá para meados de Julho.
Mas o destino de vez em quando lembra-se de nos pregar uma ou outra rasteira. Ou de nos privar de um jantar ao qual temos direito. Grande macavenco, esse fado que não nos permite fazer planos com antecedência.
O grande mal do J era não ser um moço exactamente altruísta.
Acho até um bocado egoísta da parte dele ter escolhido exactamente esta altura para esticar o pernil, visto que, para mim, esta não está a ser a mais fácil das semanas.
Mas há certas coisas que uma pessoa não escolhe, seja o clube pelo qual se torce, seja de quem se gosta, seja quando se morre (suicidas à parte).
Durante o funeral, não consegui deixar de pensar no que diria o J se estivesse a assistir à cerimónia. Provavelmente não diria nada. Estaria ocupadíssimo a fitar que nem um perdigueiro as formas curvilíneas de algumas das convivas que por lá penavam.
Enquanto iam fechando a coisa, atirei lá para dentro um papel dobrado com uma última mensagem para o rapaz.
“Agora que me levas vantagem, vê lá se vais procurando restaurantes de jeito por aí”.
Só mesmo para ver se não se voltava a baldar à aposta, espécie de caloteiro. A morte é fraca desculpa, gaita.
Macho que é macho nunca deixa dívidas por cumprir. Seja aqui, seja noutro lado qualquer.

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publicado às 16:23


5 comentários

De Daniel a 19.06.2008 às 16:38

Grande post. Sentido mas nunca lamechas. O recadinho foi mais que justificado. R.I.P.

De Cientista a 19.06.2008 às 23:51

Um abraço...

De Ricardo a 21.06.2008 às 00:35

Momentos fodidos, estúpidos, incompreensíveis... Um abraço forte (como eu), pá!

De Anónimo a 23.06.2008 às 23:38

Parabéns!
Bonita homenagem essa que lhe fazes. Ele, esteja onde estiver, há-de ter rido do teu recado e da forma como encaraste a coisa!

De Palavreadora a 14.07.2008 às 15:39

Lindo.
Apesar de certas partes darem vontade de rir, fiquei triste... mas é uma homenagem sentida, o seu amigo tinha sorte em o ter como amigo.
abraço

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