Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


O clique

por Inútil, em 29.08.14

Ela - Sabes? Acho que senti o clique. 

Ele - O clique? 

Ela - Sim, o clique. 

Ele - Define "o clique". Deste cabo do joelho outra vez, foi isso?

Ela - Não, nada disso. Estás a ver aquele momento em que uma pessoa a quem tu não ligavas pevide se torna, de repente, na única pessoa que tu consegues ver focada? 

Ele - Imagino que isso dependa da quantidade de gins que tenhas bebido antes. 

Ela - Não, parvo. 

Ele - Então? 

Ela - Não te sei explicar, sabes? Tudo aquilo que a pessoa faz, tudo aquilo que a pessoa diz, tu segues com um interesse extremo. 

Ele - Mesmo que te esteja a dizer que gosta de cabeça de pescada com batatas? 

Ela - Tu cansas-me a beleza... O clique é quando todos os teus sentidos se dedicam a absorver tudo o que essa pessoa é. Seja ao olhar, à audição, ao cheiro a que associas a pessoa e... 

Ele - Então e se a pessoa tiver problemas de higiene? 

Ela - Não sejas idiota, pá... 

Ele - Então e o tacto e o paladar? 

Ela - O clique não dá para tudo... 

Ele - Dá para quê então? 

Ela - Sei lá. É aquilo que te leva a dizer "quero muita coisa, quero o mundo, mas não há nada que queira tanto como ter a significância para essa pessoa quanto ela tem para mim". 

Ele - Percebo. Aliás, já encontrei várias mulheres que na altura eram "a mulher da minha vida". Lamentavelmente, nenhuma delas partilhava da mesma opinião. 

Ela - O problema do clique é esse. Só a própria pessoa é que o ouve. 

Ele - É um dos problemas. 

Ela - E os outros? 

Ele - O dinheiro que isso te faz gastar em aspirinas, por exemplo. O tempo investido sem retorno, também. 

Ela - É investido em boas recordações e bons momentos, ao menos. 

Ele - Opá, mas isso não é um clique nem sequer uma coisa platónica. É um álbum fotográfico. 

Ela - Não dá para falar contigo. 

Ele - Sim! 

Ela - Mas dizes isso porquê, não concordas comigo? 

Ele - Finalmente, isso faz clique! 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:14

Da insistência

por Inútil, em 29.08.14

Sempre me fizeram confusão as pessoas que gritam ao telefone quando estão a perder rede e que martelam os botões do comando quando as pilhas estão no fim.

Porquê, senhores, porquê?

E porque não carregar no botão da consulta de saldo do multibanco com muita muita fé naqueles dias que antecedem o final do mês?

Ou carregar na caneta com mais força no boletim eleitoral no quadradinho daquele candidato que querem mesmo mesmo que ganhe?

É o mesmo princípio e tem o mesmo resultado prático! Zero.

Se a coisa se regesse assim, cada ida às finanças iria incorrer numa sessão de mocada no funcionário público que estivesse no guichet.

Na verdade, este é um conceito semelhante ao da violência doméstica.

Não é pelo cônjuge não estar a exercer um normal funcionamento que lhe temos de dar com uma enxada no lombo.

Há coisas que funcionam e há outras que não. Nem sempre percebemos porquê e a ausência de resultados irrita um gajo.

A verdade é que para isso parece que já há uma solução que não a insistência.

É rezar um terço.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 00:59

O novo banco

por Inútil, em 26.08.14

Tenho uma nova entidade patronal, que não o BES.

Calma, também não é o novo banco.

Será um consórcio Norte-Americano que, entre outras coisas, é dono do canal de televisão AMC, esse mesmo que produz os "Walking Dead".

O que me deixa com expectativas para um eventual protocolo de intercâmbio profissional futuro.

Ia eu para a série e vinha um zombie fazer seguros. Até já tenho tudo planeado para o casting.

É só pedir a alguém que me filme nos dias em que entre às 08h30. É fatal como o destino que algum produtor da coisa diga "epá, este tal de Inútil é um zombie autêntico, grunhe e tudo. E nem vamos ter que abusar na maquilhagem que o gajo já é feio como uma noite de trovoada!".

Mas adiante.

Acho alguma piada a esta ideia de uma nomenclatura renascentista para uma coisa em ruínas.

Os clientes tiveram acesso a um "Novo saldo"? Foi aplicada às contas alguma "Nova taxa de manutenção"?

Não. E isso é pateta.

Porque a única coisa que vai haver de "Novo" para muita gente é uma refrescante viagem pelos meandros do subsidio de desemprego.

Gente que, enfim, ganha uma "Nova vida".

E do velho se faz o "Novo". Mas com a merda do costume.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:08

O postal

por Inútil, em 26.08.14

Ela - Sabes, estava para aqui a pensar.. 
Ele - Bem dizem que há uma primeira vez para tudo. 
Ela - Parvo. 
Ele - Mas diz lá, estavas a pensar em quê? 

Ela - Bem... que às vezes, gostava que a minha vida fosse como um postal. 
Ele - Como assim? Estática? 
Ela - Não! 
Ele - Então? 
Ela - Opá, como aqueles postais, que têm uma fotografia de um casal aos beijos, junto a uma fonte, com passarinhos no fundo e o sol a brilhar. 
Ele - Ah, gostavas que a tua vida fosse fictícia, manipulada para aparentar ser perfeita? 
Ela - Não! 
Ele - É que essas imagens não correspondem à realidade, são um tanto ou quanto fantasiosas
Ela - Não sabes isso. Por vezes, até dão ideia de serem reais. 
Ele - Ah, mas sei, sei! Alguma vez conseguias estar ali na meio da praça do Rossio aos beijos sem um pombo te cagar em cima? Isso é que é realidade, pá. Isso é que devia vir nos postais: uma fotografia de um gajo com uma cagadela no casaco e a legenda a dizer "Lisboa - A cidade onde todos se estão a cagar para si". 
Ela - O que eu gostava era que me desses uma resposta séria de vez em quando... 
Ele - Mais sério que isto? Tu é que estás para aí com pensamentos idílicos! Só estou a tentar fazer uma aproximação à realidade. 
Ela - Irra que tu também tiras a magia a tudo. 
Ele - Onde é que está a magia no acto de um pombo me cagar na testa? 
Ela - Não, burro! A magia está naquele momento que até é único e fica imortalizado naquele postal, em que o mundo parece que deixa de girar e mais ninguém existe em redor deles. 
Ele - Sim. Lá parados estão eles... 
Ela - Falta-te um certo romantismo, não é? 
Ele - A culpa não é minha. 
Ela - Então? É de quem? 
Ele - Da minha Mãe. 
Ela - Da tua Mãe? 

Ele - Sim. Parece que não me terá forçado a ver telenovelas em doses suficientemente elefantinas na minha infância, para conseguir construir essa visão amaricada da coisa. 

Ela - Não tem nada a ver com isso. Pá... desisto. Isto chega a um ponto em que se torna impossível conseguir ter um diálogo racional contigo. Até parece que fazes de propósito. 
Ele - É mais forte do que eu. 
Ela - Tenho de deixar de discutir certos assuntos contigo. Como este. 
Ele - Ora, isso é que já dava um belo postal! 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:52

Como dar uma má noticia

por Inútil, em 30.07.14

Uma das minhas falhas enquanto pessoa é não dominar a arte de saber transmitir notícias desagradáveis.

Palavra de honra que já tentei aperfeiçoar esta lacuna, mas sempre que consigo tapar o buraco de um lado, acabo por destapar de outro, pelo que tem sido um processo de aprendizagem constante, a incessante procura pela abordagem perfeita.

 

No decurso dessa jornada de descoberta, acabei por encontrar e conseguir definir três abordagens distintas.

 

1) A abordagem directa

 

Ele - Tudo bem?

Ela - Tudo!

Ele - Sabes que mais? Atropelaram o teu cão, o Pantufa.

 

Prós: Alivia rapidamente a pressão posta no mensageiro.

Contras: Convém saber técnicas de reanimação e ter um copo de água com açúcar à mão.

 

2) A abordagem hipotética

 

Ele - Como é que ficarias se alguém atropelasse o Pantufa ?

Ela - Desolada, porquê?

Ele - Porque atropelaram o Pantufa.

 

Prós: Inconscientemente, prepara-se o receptor da má notícia para o pior.

Contras: Ninguém vai livrar o mensageiro da reputação de bestinha atrasada mental. 

 

3) A abordagem relativista

 

Ele - Atropelaram o teu pai e o Pantufa.

Ela - Meu Deus!!

Ele - Estava a brincar, foi mesmo só o Pantufa.

 

Prós: A carga negativa da má notícia é reduzida e fica uma certa nuance humorística no ar com aquele punchline final.

Contras: Da mesma maneira que o negativismo da situação decresce, aumenta o risco do mensageiro ser sovado no final.

 

Todas funcionais, mas todas elas com defeitos.

Talvez não haja uma forma perfeita de dar más notícias, por estas serem a imperfeição em si.

Ou talvez a melhor forma seja mesmo a minha. Passar o cargo de mensageiro a outro infeliz qualquer.

E ele que se desemerde.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:27

Comida moderna

por Inútil, em 30.01.14

Cliente - Boa noite.

Empregado - Boa noite. O que vai desejar?

Cliente - Não sei... quais é que são os pratos do dia?

Empregado - Com certeza. Pronto a sair temos uma espuma liofilizada de pão com sauté de entrecosto e chouriço.

Cliente - É parecido com migas?

Empregado - Mais ou menos.

Cliente - Qual é a diferença?

Empregado - É mais caro.

Cliente - Hum... e de peixe, o que há?

Empregado - Ainda bem que pergunta. Bacalhau cozido a 40º graus num confit de tubérculo, com telha de salsa e noisettes de azeitona. Uma especialidade.

Cliente - Então... mas isso é bacalhau à Brás!

Empregado - Hum... não. Por este preço, não é.

Cliente - Bom.. então e bitoque, há?

Empregado - Não.

Cliente - ...

Empregado - Mas temos uma peça de novilho do Sri Lanka, em ninho de arroz e maigret de ovo e batata.

Cliente - Esqueça, traga-me só um café.

Empregado - Pois...

Cliente - Ok, já percebi... Uma infusão de bagas de café em cama de porcelana...

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:37

Uma questão de imaturidade XII

por Inútil, em 22.01.14

Ela: Amor...

Ele: Hum.

Ela: Tens mesmo muito interesse em ver este jogo que está a dar?

Ele: O Benfica? Claro!

Ela: Ah...

Ele: Porquê?

Ela: Bem... é que a esta hora está a dar na TVI a noite de expulsões na casa dos segredos...

Ele:...

Ela:... e eu queria ver quem é que saía.

Ele:...

Ela: Não podemos antes ver isso?

Ele: Isso não volta a dar para a semana?

Ela: Sim...

Ele: Isto é o Benfica - Sporting. Só volta a dar para o ano.

Ela: Mas não podes ver depois o resumo?

Ele: Ok... vamos fazer um exerciciozinho. Gostas de bacalhau com natas?

Ela: Claro.

Ele: Preferes acabado de fazer ou comido cinco horas depois e aquecido em microondas?

Ela: Acabado de fazer...

Ele: Lá está. O jogo em directo é o bacalhau acabadinho de sair do tacho, o resumo é o microondas.

Ela: Não é bem a mesma coisa...

Ele: Além disso, que interesse é que há em ver três ou quatro badamecos que juntos não têm o QI de uma batata a serem transferidos de uma casa hoje para estarem nas capas do Correio da Manhã no dia a seguir?

Ela: É giro...

Ele: Porquê?

Ela: Não te sei explicar! Eles andam à bulha, são bimbos, mas tem piada.

Ele: Ok, faço um acordo contigo. Dá-me uma razão válida para aqueles trambolhos andarem sempre de óculos de sol dentro de uma casa fechada. E não me digas que são invisuais porque aquilo é da Endemol, não da ACAPO.

Ela: Então... sei lá... porque é fashion?

Ele: Eu disse uma desculpa válida.

Ela: Não me lembro de outra.

Ele: Pois é.

Ela: Mas podemos ver?

Ele: Depois do Benfica.

Ela: Estúpido.

Ele: Vês? Se já há aqui um, não são precisos mais dez na TVI.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:20

Ironia

por Inútil, em 15.01.14

Em conversa com um hipotético cliente:

 

Cliente: Cancelei o meu seguro porque achava que qualquer seguradora ia fazer mais barato, mas afinal faziam todas mais caro.

 

Inútil: Pois, é irónico...

 

Cliente: O que é que isso quer dizer?

 

Inútil: Bem, que é irónica, a situação!

 

Cliente: Não, não... o que é quer dizer "irónico"?

 

 

 

A minha fé na salvação da humanidade vai desaparecendo em doses elefantinas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:21

Danças

por Inútil, em 14.01.14

Confesso, não sei dançar.

Abano-me da forma mais desconexa possível, fazendo lembrar os rituais de acasalamento daqueles pássaros da América do Sul que um gajo só vê na National Geographic.

É triste, mas é verdade. Em compensação, sei fazer uns petiscos à maneira. Mas não é isso que está em causa.

A questão aqui é que, falta de jeito à parte, é mais fácil dançar sendo fêmea. Ou melhor, é mais fácil executar um conjunto de movimentos ritmados que seja agradável aos olhos de outras pessoas sendo fêmea.

Se uma mulher estiver a dançar ao mesmo tempo que simula um ataque de sarna, todos os machos nas imediações irão achar que aqueles movimentos têm uma certa natureza lasciva. "Uh, já viste como é que ela se coça? Mas que cheirosa...".

Sim, é verdade, somos assim tão básicos.

Já se um homem for visto a abanar o caneco dessa forma... bem, não haverá quem o livre de uma bela reputação de nabiço. Ou esquizofrénico. Ou ambas.

Porque é que isto acontece? Será a sensualidade uma coisa mais inerente aos membros do sexo feminino? Pessoalmente, acho que sim.

Não acreditam? Ok.

Tentem visualizar uma fêmea a lavar a louça, envergando só um avental e um par de peúgas. Consegue atingir os mínimos na escala da volúpia, não é? Agora façam o mesmo exercício, mas visualizando um macho.

Há que ver as coisas como elas são e aceitar a realidade. As mulheres são sensuais por natureza. Nós temos de nos esforçar um bocadito para lá chegar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:20

Sonho de uma noite de Verão

por Inútil, em 11.07.12

Entras pela porta dentro em mais uma noite banal e pedes outra cerveja que bebes num trago na esperança de ajudar a esquecer mais um dia totalmente rotineiro até que a vês primeiro de relance depois fazendo um esforço hercúleo para conseguir tirar os olhos de cima dela não sabes bem porquê talvez por ser bonita talvez por te parecer o oposto do teu quotidiano trivial e maçudo e te conseguir transportar para uma outra dimensão com um simples esboçar de um sorriso que te faz esquecer que a vida é um elemento condutor de tristeza e decides ir falar com ela acerca de tudo acerca de nada acerca de disparates e coisas sem significância que têm a maior importância do mundo e descobres que ela é a tal a mulher por quem tens estado à espera a pessoa cuja companhia não dispensas e para quem tens sempre tempo tens sempre rede tens sempre atenção só não tens modo de lhe dizer isso mesmo por medo de perder a visão daquele tal sorriso inspirador por isso ficas calado mas só por fora porque por dentro gritas a plenos pulmões e cada mais pequena célula tua cada parcela do teu ser te compele a dizer o que te assusta e exorcizares os teus medos independentemente das consequências do acto e aí falas abertamente expões-te como nunca o havias feito antes e sentes o estômago aos pulos entras em curto-circuito e sentes o cérebro a derreter porque ali não há espaço para a razão só mesmo para ela e para a resposta que esperas um sim que supera o Euromilhões o Benfica campeão europeu tudo e mais um par de botas ou um não que sabe a angústia desmoralizador que te suga a vida até ao tutano.

E aí acordas e vês que estavas a sonhar. Levantas-te e deixas tudo começar outra vez.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:52


Sobre o Inútil


Para twittar

http://twitter.com/Sem_Utilidade

Onde é que anda aquilo?

  Pesquisar no Blog





Comentários recentes

  • Inútil

    Irei fazer isso, mas com uma condição: que o meu a...

  • Anónimo

    Em primeiro lugar e visto que tb eu tenho direito ...

  • Joana

    Nem todos os culturistas utilizam anabolizantes. N...

  • Anónimo

    Like this!

  • Il Gattopardo

    À Mui Venerável Loja do Castiço,Frisadas saudações...